Mortalidade infantil no Ceará volta a subir após 26 anos
De acordo com as informações do Ministério, em 1990, o Estado registrava 79,5 mortes por 100 mil nascidos vivos, taxa superior à nacional, que alcançava 47,1. No período de 15 anos desde a época, o índice sofreu uma queda de 83,6%. Seguindo uma tendência vista em quase todo o País, só voltou a aumentar em 2016.
Em nota, a Pasta federal afirma que o aumento registrado em nível nacional não é caracterizado como significativo e não implica em mudança no cenário de redução observado nos últimos anos. O Ministério cita, por exemplo, que o Brasil alcançou a meta de diminuição de dois terços da mortalidade infantil, prevista nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
A coordenadora de Vigilância em Saúde da Sesa, Daniele Queiroz, destaca que, mesmo com o aumento, o Ceará continuou com taxa inferior à nacional, estipulada em 14,0 no ano de 2016. Segundo Daniele, a oscilação é resultado da epidemia gerada pelo vírus zika no Estado entre 2015 e 2016, que, além de ter provocado óbitos entre crianças, refletiu-se na diminuição da taxa de natalidade, a qual está diretamente relacionada à taxa de mortalidade.
Natalidade
“Por conta de todo o pânico, diante desse evento epidemiológico, tivemos redução da natalidade. Muitas mulheres esperaram até que o cenário fosse mais favorável para engravidar. Quando acontece uma redução da natalidade, há impacto na taxa de mortalidade, porque ela é o numero de mortes dividido pelo número de nascidos vivos”, explica a coordenadora.
Para a professora Magda Almeida, do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), os casos de zika e microcefalia resultaram mais em sequelas do que em óbitos infantis. Na visão da especialista, as dificuldades enfrentadas pelo Programa Saúde da Família (PSF), responsável pelo trabalho de acompanhamento de gestantes e recém-nascidos, têm maior reflexo na mortalidade.
A professora ressalta que o principal obstáculo é a falta de profissionais nas equipes do programa, em especial de agentes comunitários de saúde. “Muitas equipes estão descobertas. Os agentes estão sobrecarregados e não tem como fazer a função de vigilância em saúde, que é monitorar nascidos vivos, os faltosos em vacinas, as gestantes”, frisa.
Magda também salienta que, embora a crise econômica tenha aumentado a demanda na rede pública, as falhas do atendimento na atenção primária não são recentes. “Claro que a crise fez com que mais pessoas procurassem os postos de saúde, mas as equipes já estavam subdimensionadas antes disso”, completa.
Fortalecimento
Daniele Queiroz, da Sesa, afirma que a qualificação da atenção primária é uma das ações da Secretaria para reverter o crescimento da mortalidade infantil. “Temos investido para que seja identificado, ainda no pré-natal, se existe algum risco, prevendo mortes infantis. Fazemos um acompanhamento das gestantes que têm risco maior e desses bebês nos primeiros meses de vida na unidade básica”, diz.

