Ceará

Governo intensifica ações de combate à criminalidade

A maior chacina da história do Ceará acontecida no último sábado, quando pelo menos 14 pessoas foram assassinadas em uma casa de forró, repercutiu mundialmente, mas parece não ter assustado André Costa, titular da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Estado (SSPDS).

Ele alertou, durante entrevista após a matança, do bairro Cajazeiras, que a população fortalezense não precisa temer ou entrar em pânico e classificou o ato como um fato isolado.

“Não há perda de controle. É um evento isolado. É uma situação criminosa, que foi organizada, que foi planejada e que veio a ser executada”. André comparou ainda a situação com ataques a boates e shows em outros países, como nos Estados Unidos. Para ele, “não há motivo para pânico, para temor”.

As palavras do secretário, porém, não foram endossadas pelo governador Camilo Santana, que, pelas redes sociais, referiu-se à chacina como “ato selvagem e inaceitável”.

No texto, ele afirmou que convocou imediatamente o secretário André Costa e a cúpula da Secretaria de Segurança, determinando “rigor absoluto nas investigações e busca incessante aos criminosos.

Santana quer que todos os envolvidos sejam identificados e presos o mais rápido possível. “Não aceitaremos, de forma alguma, que esse tipo de barbárie fique impune. Confio na nossa polícia e tenho absoluta convicção de que uma resposta será dada muito em breve”, afirmou o Governador.

Ação
Para conter a onda de violência que assola o Estado, Camilo organizou, na tarde de ontem, uma força-tarefa juntamente com representantes de SSPDS, Polícia Militar, Polícia Civil e Perícia Forense, além do Ministério Público e do Judiciário.

O encontro resultou em medidas urgentes para tentar coibir a ação dos grupos criminosos organizados que atuam na Capital e no interior em disputas sangrentas por territórios visando expandir a comercialização ilegal de drogas. A barbárie na Comunidade Barreirão muito provavelmente tem ligação direta com tais crimes.

Pelo menos, três medidas serão adotadas em caráter de urgência no Ceará. A primeira delas é o desenvolvimento físico de um centro integrado, que será composto pelos representantes dos principais órgãos ligados à segurança no Estado.

O grande objetivo é o combate ao crime organizado. O segundo ato é criar um núcleo especializado inserido à Polícia Federal, uma espécie de grupo de elite com efetivo da corporação, fortalecendo a briga contra as facções. O terceiro passo é a viabilização de uma vara específica (junto ao Tribunal de Justiça do Ceará – TJCE) que teria como missão trabalhar exclusivamente em casos ligados aos crimes com participação dos grupos criminosos atuantes.

Suspeitos
Segundo o governador do Ceará, a Polícia Militar identificou cinco suspeitos de participarem do massacre do último sábado. Dos supostos participantes, três são considerados mandantes e dois atuaram nas execuções. “Nas próximas horas, nós vamos dar uma resposta firme em relação a quem cometeu [a chacina]. É inaceitável o fato corrido, e as pessoas serão punidas com o rigor da lei”, disse o gestor. De acordo com boletim médico divulgado pelo Instituto Doutor José Frota, quatro pessoas que sobreviveram ao tiroteio passaram por cirurgias e continuam internadas. Cinco já receberam alta.

Má reputação
O Ceará é um dos Estados que apresentam piores índices de violência no Brasil. No relatório Atlas da Violência 2017, divulgado em junho do ano passado, o Ceará aparece com a terceira mais alta taxa de homicídios, com 46,75 por 100 mil habitantes. Apenas Sergipe (58,09) e Alagoas (52,33) contam com índices piores. O melhor índice é o de São Paulo, com 12,22.

Entre as capitais, Fortaleza conta com a segunda maior taxa de homicídios, com 66,72, perdendo somente para São Luis (MA), com 70,58. Elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao governo federal, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG especializada no assunto, o estudo analisou dados do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde, que traz informações sobre incidentes até o ano de 2015.

O caso
No sábado, por volta das 00h30, um grupo com cerca de 15 homens, em três carros, abriu fogo contra frequentadores da casa de show “Forró do Gago”. Membros do GDE teriam como alvos traficantes do CV que estariam no local. Segundo testemunhas, a ação levou pânico ao bairro. Pessoas sem qualquer relação com a disputa do tráfico foram atingidas. A ação foi a maior chacina da história do Ceará.

 

Facções valorizam juventude e crueldade
Para o sociólogo César Barreira, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), a facção Guardiões do Estado (GDE), que teria sido responsável pelo massacre nas Cajazeiras, apresenta características distintas de outras com as quais disputa o espaço de tráfico na região. “Se formos mapear, temos no Ceará as seguintes facções: Comando Vermelho, PCC, Família do Norte, Guardiões do Estado e Amigos dos Amigos. Essas duas últimas estão se construindo com pessoas muito jovens e os crimes têm muitos requintes de crueldade”, diz Barreira, que coordena o Laboratório de Estudos da Violência da universidade.

Segundo ele, ataques como o de sábado decorrem de “disputa das facções por delimitação e consolidação de territórios e poderes que ainda não estão definidos”.

o Estado